domingo, 6 de dezembro de 2009

"Isocrate suicidé"

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Eu já havia ouvido falar da música. Meu amigo Claudio Bastidas me disse que ela falava de Isócrates, sujeito que estudei no mestrado e doutorado.
Uma música com Isócrates na letra? Mas ninguém fala de Isócrates, em canto nenhum, como uma música falaria dele?, perguntei. Mas ele confirmou, garantindo ainda que era Seu Jorge quem cantava... Vou ver, vou ver, eu disse, mas por qualquer coisa, eu esqueci de ver. A faculdade do esquecimento opera em mim poderosamente. Passa o tempo, e em uma aula falo de Isócrates, lembro (sabe-se lá como) da música, e pergunto à sala se alguém a conhece - e ninguém a conhece. Mas o Daniel Melo, colega do primeiro ano de Filosofia da Umesp, depois de investigar, manda-me o link do vídeo do Seu Jorge cantando, junto da Ana Carolina, a tal melodia, caçada no Youtube. E não é que ela fala mesmo de Isócrates?! Uma bem-humorada trilha sonora para suicidas, a música põe em fila quem se matou ou deixou-se morrer, e termina dizendo que ele, o cantor, não está lá cem por cento... Estranhei, estranhei de novo... Como é que Isócrates pode ter entrado em uma letra de música brasileira? Mas a música não é brasileira (minha ignorância é muito eclética): no original, fora composta e interpretada pelo adoravelmente tosco Serge Gainsbourg.
Aí, fica claro: um francês pode compor uma canção chamada Chatterton, juntando Nietzsche com Schumann, Van Gogh com Goya, Marco Antônio com Demóstenes e todo mundo entender... A gente não pode, mas a interpretação do Seu Jorge - colocando Getúlio Vargas, Kurt Cobain e um palavrão lá pelo meio - faz a música ser absolutamente nossa, mesmo ninguém entendendo nada...
A Ana Carolina também ajuda, pronunciando Isócrates à francesa (Seu Jorge faz o mesmo ao dizer Marco Antonio).
Serge Gaisbourg, lá do canto escuro, enfumaçado e cheio de mulheres de onde nos olha, deve ter gostado. Isócrates, não sei...




A versão original pode ser vista aí embaixo.
Mais para baixo ainda, a letra.


Serge Gainsbourg - Chatterton

Chatterton suicidé

Hannibal suicidé

Démosthène suicidé

Nietzsche

Fou à lier

Quant à moi...

Quant à moi

Ça ne va plus très bien



Chatterton suicidé

Cléopâtre suicidé

Isocrate suicidé

Goya

Fou à lier

Quant à moi...

Quant à moi

Ça ne va plus très bien



Chatterton suicidé

Marc-Antoine suicidé

Van Gogh suicidé

Schumann

Fou à lier

Quant à moi...

Quant à moi

Ça ne va plus très bien


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Descrever não é prescrever



Rousseau



































"Eu já disse alhures que não me propunha subverter a sociedade atual, queimar as bibliotecas e todos os livros, destruir os colégios e as academias, e eu devo acrescentar aqui que absolutamente também não proponho que os homens venha a contentar-se apenas com o necessário. É preciso não formar o projeto quimérico de fazer deles pessoas de bem -- sinto-o bem; mas eu me julguei obrigado a dizer sem disfarce a verdade que me foi pedida. Eu vi o mal e me encarreguei de encontrar as causas dele. Outros mais ousados ou mais insensatos poderão procurar o remédio."


(Jean-Jacques Rousseau, Última Resposta de J.-J. Rousseau, de Genebra, às Críticas ao Primeiro Discurso, Oeuvres Complètes de J.-J. Rousseau, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t. III, p. 95.)


É bom ler dessas coisas, vez ou outra, para se livrar das pretensões higienistas da Filosofia e dos bem-pensantes...

Constatar a m*... não quer dizer saber/querer/poder/dedicar-se à resolver a m*..., ainda que Rousseau tenha escrito o "Projeto de Constituição para a Córsega" e as "Considerações sobre o Governo da Polônia" (tenha certeza de que a aparente contradição é apenas sinal de nossa incapacidade de pensar por cima da aporia).


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Um texto de Pondé

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Nesses dias de trabalho dobrado, um texto de Luiz Felipe Pondé, saído na Ilustrada da Folha de São Paulo de segunda, dia 30. Gosto de ler o que ele escreve, de uma maneira semelhante àquela de quando eu lia Paulo Francis: não sei se vou concordar, mas sei que ficarei incomodado. E ficar incomodado é sempre muito melhor do que repousar na certeza.

LUIZ FELIPE PONDÉ

Arsênico


Muitos escravos livres e com dinheiro se apressavam em comprar seus escravos


DEVO ESTAR atravessando um período masoquista. Depois da experiência "2012 retardados", que partilhei com você, caro leitor, na semana passada, no final do feriadão da Consciência Negra assisti na TV a cabo a outro lixo, "O Dia em que a Terra Parou", com Keanu Reeves no papel de um ET. Ele é, claro, melhor do que nós, humanos bárbaros.


Para salvar a Terra, ele deve matar 6 bilhões de pessoas. Mas por quê? Porque nós estamos destruindo o planeta, por isso, devemos morrer para salvar as baleias, as baratas e os sacis. O Keanu-ET é uma espécie de "fundamentalista verde intergaláctico" que, por "ser bonzinho", prefere os percevejos aos humanos.


O ET verde só desiste de nos matar "em nome do bem dos siris" quando provamos pra ele que "yes, we can change" (sim, nós podemos mudar) -mantra obamista. O incrível é que tem gente que acha isso legal: nós somos maus, mas os insetos são dignos de redenção cósmica. Está vendo, caro leitor? A cada minuto nasce um retardado entre nós.


Falando em Consciência Negra, sempre achei essa história do "santo Zumbi" mal contada. O fato é que as mesmas pessoas que criticam as vidas de santos católicos em nome da "verdade histórica" caem na mesma armadilha, produzindo hagiografias (vida de santos) ao sabor de suas próprias manias políticas, como no caso de Zumbi, Lamarca, Che Guevara. Quer saber? Prefiro os santos católicos.


Ouvi dizer que Zumbi tinha seus escravos em meio a sua "Nova Atlântida". Incrível! Já sabia, por fonte segura, que muitos escravos, quando ficavam livres e tinham dinheiro, apressavam-se em comprar também seus escravos. Danadinhos...


Não que eu seja contra o feriado da Consciência Negra, muito pelo contrário, "minha religião" é a favor do maior número possível de feriados, pouco importa em nome da consciência de quem for. Não sou esse tipo de pessoa que discursa contra feriados para fingir que é produtiva. Pelo contrário, quanto mais dias nacionais da preguiça, melhor.


Mas eu dizia que o feriadão não foi de todo perdido para minha pobre alma filosófica. Entre outras coisas boas, li o "LTI - A Linguagem do Terceiro Reich", de Victor Klemperer, (Contraponto). Magnífico, deveria ser lido por toda essa gente com pendores fascistas que anda à solta por aí. Termos como "construção de um novo homem", "nova consciência", "autoestima nacional", "nova cultura", "a força jovem" e "novo futuro" são de raiz fascista. Ouvi e li muitos deles por ocasião da Consciência Negra.


Entre tantas coisas importantes, uma que me chamou atenção foi o fato de que, segundo Klemperer, a linguagem do Terceiro Reich era pobre no que se refere a descrições da natureza humana.
Sei que tem gente que tem alergia a essa expressão, "natureza humana", mas tomem alguma medicação quando ouvi-la, como eu faço quando ouço coisas que me aborrecem por aí, como "construção social de novas subjetividades".


Dentro de sua mania de "redefinir" os significados das palavras, os nazistas descreviam a natureza humana apenas dentro do modelo que lhes era interessante: força, solidariedade coletiva, pureza, saúde, eficácia, fidelidade ao grupo. O efeito desse processo (comparado a doses homeopáticas de arsênico para o espírito do povo alemão da época) era o estreitamento da visão da natureza humana, visando a exclusão das contradições que nos caracterizam. São essas contradições que os retardados não suportam.


Incrivelmente, diz Klemperer, a Alemanha não parecia ter muitos recursos mentais para resistir à concordância em massa com esse empobrecimento da linguagem.


A pergunta é: teríamos nós hoje? A tendência da linguagem a se tornar pobre é sempre presente quando nos lançamos em campanhas que visam a construção social de comportamentos, pouco importa o sistema de governo, porque uma língua empobrecida é uma língua envenenada. O que nos enriquece são nossas contradições, nossos erros. Por isso, sempre serei contra qualquer tentativa de construir um "novo homem"; prefiro o "velho homem" e suas misérias.


Quer um exemplo de contradição? Se Zumbi, depois de sofrer o horror da escravidão e de ter conseguido fugir desse horror, tiver comprado escravos para seu uso, aí sim, ele é um nosso igual, com o mesmo rosto. O nosso rosto. Sombrio, às vezes corajoso, às vezes cruel, sempre imperfeito.

ponde.folha@uol.com.br



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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Philadelpho Braz (29.07.1926 - 17.11.2009)

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Fiquei sabendo agora que o "Seo" Philadelpho faleceu, depois de um tempo internado no Centro Hospitalar de Santo André.


Líder sindical, ativista dos direitos políticos, ele simbolizava bem a história de tantos outros (nossos pais, nossos avós), que vieram para essa terra fazer a si mesmos na dureza da vida nas fábricas - ao mesmo tempo em que criavam o Grande ABC das lutas operárias.


Tanta gente daqui que gosta de falar sobre movimento social, sobre classe trabalhadora, revolução e quejandos, ao perguntarmos sobre Philadelpho, dirão: "- Quem?"


É pena.


Não se entende o mundo se não se entende a rua...


Mas eu lembrarei do "Seo" Philadelpho conversando comigo nos corredores do Museu de Santo André, lembrando das greves no sindicato, de quando foi preso, falando do GIPEM, da necessidade de se preservar o patrimônio cultural de nossa região nas reuniões do COMDEPHAAPASA, dos almoços depois das reuniões em um restaurante chinês que tem um prato com seu nome, das caronas que eu lhe dei até sua casinha simpática na Vila Guiomar, e das coisas que ele me falava sobre um mundo e uma vida tão diferentes...


E sempre me chamando de professor, quando o professor era ele.


Nós, os que o conhecíamos, sentiremos muito a falta de sua voz calma e de sua ira justa.


Obrigado, "Seo" Philadelpho...




Sobre Philadelpho Braz:


http://blog.alpharrabio.com.br/2009/11/19/philadelpho-braz-saudade/


http://www.quimicosabc.org.br/noticias.php


http://www.cnmcut.org.br/verCont.asp?id=20354

Philadelpho morre sem ver o Museu do Trabalhador


http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=17380


http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=3446


http://www.mte.gov.br/imprensa/homenagem/24_philadelpho_braz.asp


http://www.dgabc.com.br/default.asp?pt=colunas&pg=colunadetalhe&col=15&men=2919


http://www.fsindical.org.br/fs/index.php?option=com_content&task=view&id=6918&Itemid=2


http://www.museudapessoa.net/mtrab/depoimentos/philadelpho_braz_pg01.htm



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terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Filosofia na Antiguidade Clássica - Casa da Palavra

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Hoje, eu falo sobre Filosofia Antiga em mais uma edição das Terças-Filosóficas, evento realizado pela Casa da Palavra de Santo André em parceria com o Curso de Filosofia da Metodista.



































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